Dez anos de inclusão digital em São Paulo: além de acesso à internet, participação direta da população em políticas públicas

Em 2000, Michael Dertouzos alertava que se deixado por sua própria conta, o mercado de informação aumentaria a brecha entre os países ricos e pobres e entre as pessoas ricas e pobres” (1) . Por isso, está claro para quem trabalha com inclusão digital que hoje o desafio maior consiste em que não só toda a população tenha direito ao acesso à Internet, mas que usufrua do direito de assumir cada vez mais sua participação na esfera pública.

Seja na articulação de programas específicos ou na criação de condições de atuação e de infra-estrutura técnica, é muito difícil imaginar uma sociedade preocupada com a questão tecnológica que dispense participação governamental. É uma ilusão imaginar que o mercado ou o terceiro setor possa dar conta da demanda social, especialmente em um país com as características sociais do Brasil, por mais que haja boa vontade das partes.

Encarar a inclusão digital como um objeto de política pública, portanto, é fundamental. Em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, Ricardo Kobashi afirma que na década de 1970, antes do PC e da internet, Tichenor, Donohue e Olien, professores da Universidade de Minnesota, formularam a "Knowledge Gap Hypothesis" (Hipótese da Lacuna de Conhecimento). Segundo eles, a capacidade de uma pessoa receber, compreender e assimilar conhecimento depende do seu conhecimento anterior, das redes sociais das quais participa e do nível de exposição aos diferentes meios de comunicação. Assim, “pobres de informação tendem a ser cada vez mais pobres; e ricos em informação, cada vez mais ricos, gerando uma polarização crônica na sociedade”, diz Ricardo Kobashi (2).

Para evitar que as 'barreiras digitais' ampliem as desigualdades sociais, reforçando ainda mais as vozes daqueles que já são privilegiados no sistema político, é necessário que o poder público, em parceria com o setor privado, estabeleça políticas agressivas para garantir o acesso de toda a população às novas tecnologias, através da implementação de equipamentos na rede escolar, em bibliotecas e pontos públicos. Além disso, para que as pessoas possam utilizar as tecnologias com propósito e confiança, pouco adianta ter computadores e conexões disponíveis, se os recursos educativos e cognitivos e a capacitação técnica específica não são providos. Projetos de democratização do acesso às tecnologias e de capacitação para plena participação são urgentes e fundamentais. É nesse sentido que o Acessa SP – programa de inclusão digital do governo do estado paulista - investe no cumprimento de sua missão: garantir acesso democrático e gratuito às tecnologias da informação e comunicação, facilitando o uso dos serviços de governo e produção de conhecimento, e promovendo os processos de participação pública e redes sociais para o desenvolvimento econômico, social, pessoal e da cidadania (3) .

Neste contexto, parte dos esforços do programa Acessa SP foram direcionados para a criação projeto Fala SP, uma experiência de participação pública e comunicação entre governo e cidadão, por meio de enquetes semanais no Portal AcessaSP.

(1) Michael L. Dertouzos, O que será?: como o novo mundo da informação transformará nossas vidas , Companhia das Letras, 2000, p.56

(2) Ricardo Kobashi, “Tecnologia a serviço da inclusão digital, portal Agência Estado”, artigo de 03/05/2005.

(3) Ver http://www.acessasp.sp.gov.br/modules/xt_conteudo/index.php?id=1

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