1.4 Noções de autonomia e auto-organização nas comunidades vivas e a produção molecular
Quando nos sentimos pertencentes a um grupo?
Como avaliar o desenvolvimento qualitativo de produções nas comunidades virtuais?
Quais seriam os requisitos para uma comunidade ser considerada convidativa à nossa participação, a despeito das tecnologias visuais desenvolvidas?
O que são comunidades vivas?
Para responder num nível introdutório a essas perguntas, nos servimos de uma composição teórica de duas obras: A Árvore do Conhecimento, de Maturana e Varella e Emergência, de Steven Johnson. Esses autores utilizaram comparações, que poderíamos chamar de didáticas, para conceituar os sistemas de autonomia e autoprodução em coletividade, baseados na lógica dos seres vivos. Faremos então a seguir uma síntese de suas principais proposições.
Johnson, pensador do ciberespaço e conhecido como o ‘pensador da emergência’ nos explica:
Imagine poder acompanhar conceitualmente um instantâneo de vida em movimento daqui a dois ou três anos – um movimento de escala em escala, como no fabuloso filme de Charles e Ray Earnes, Powers of Tea, que começa com uma vista da Via Láctea e dali faz um zoom até uma pessoa em um parque de Chicago e depois prossegue até as partículas subatômicas na mão do personagem.
Só que em nosso longo zoom encontramos, em cada escala, o mesmo comportamento repetindo-se inúmeras vezes. Comecemos na escala da própria cidade, suas comunidades pulsando e prosperando como fazem há séculos, enviando sinais para o mundo e atraindo seres humanos para dentro delas, como enormes imãs globais. O fluxo de pessoas na cidade é agora regulado por uma inteligente rede de tráfego, que evolui e aprende em resposta aos padrões do movimento de automóveis Você e eu vivemos em um desses imensos sistemas, contribuindo para seus contínuo desenvolvimento [...] e como parte de nossa vida na cidade, nos entretemos simulando, em um jogo na tela de nosso computador, a energia auto-organizável da vida urbana, construindo comunidades virtuais juntamente com milhares de outros jogadores ligados em rede no mundo todo. Na escala da cidade e na escala da tela, nossas vidas englobam os poderes da emergência (JOHNSON, 2002, p. 173-174).
De acordo com uma lógica própria, o autor faz uma série de perguntas, antes de tecer suas conclusões relativas à questão da auto-organização das redes de computadores, nos sistemas emergentes:
Pode essa cadeia [a emergência] se estender em novas direções, tanto na escala atômica da informação digital, quanto na macroescala dos movimentos coletivos? Será que os novos movimentos políticos vão se modelar explicitamente a partir da inteligência distribuída da colônia de formigas ou da comunidade da cidade? Será que existe um estágio na rede em desenvolvimento da emergência que nos leve, para além dos leitores da mentes, para algo ainda mais parecido com a vida? (JOHNSON, 2002).
Para o autor, certamente o mundo nunca esteve tão bem preparado para que esses desenvolvimentos se tornem realidade. Ele acredita que já existem muitas tentativas para se entrar na que denomina a quarta fase da emergência, ou seja, num sistema que funcione como o de uma colônia de formigas africanas, que não tem centro de poder, a base piramidal é muito ampla e há uma lógica imanente ou inteligente de auto-organização própria das formigas obreiras. Nesse caso, fazendo uma analogia à pirâmide tradicional do poder e das classes sociais, constatamos que há uma inversão: o formigueiro todo ganha visibilidade e não apenas um comandante ou uma cúpula de elite – no caso a formiga rainha – que comande um processo de produção coletiva. Analogamente, este seria o sentido do sistema de auto-organização das comunidades virtuais de um futuro próximo.
A noção de autopoiese tornou-se conhecida na literatura internacional, em 1974, a partir da obra Árvore do Conhecimento, de Maturana e Varela.
Autopoiese. Podemos dizer esta noção - que quer dizer autoprodução - caminha paralelamente a um tipo de pensamento de auto-organização da vida coletiva, fundado a partir de um ponto de vista da lógica do sistema dos seres vivos – etologia - sob a forma de um determinismo estrutural.
De acordo com o sentido expresso no livro, o termo define os seres vivos como sistemas que produzem continuamente a si mesmos. Esses sistemas são autopoiéticos por definição, porque recompõem continuamente seus componentes desgastados. São seres de produções moleculares, onde há uma circularidade, onde as moléculas reproduzem a mesma rede que as produziram.
Assim, um sistema autopoiético é ao mesmo tempo produtor e produto. Maturana afirma que o termo traduz o que chamou de ‘centro da dinâmica constitutiva dos seres vivos’. Para exercê-lo, eles precisam recorrer a recursos do meio ambiente e são, por isso, ao mesmo tempo autônomos e dependentes. Entretanto, não se está tratando aqui de um paradoxo? Autonomia x dependência?
Segundo Maturana, essa condição paradoxal só pode ser entendida pela lógica da complexidade dos seres vivos, que não pode ser compreendida dentro da lógica do pensamento linear, no qual tudo se reduz à binariedade do sim/não ou do ou/ou. Em outras palavras: funciona-se por composição de relações e não por partes separadas ou excludentes e há um empenho coletivo pela busca das relações dinâmicas entre essas partes(3) .
[NOTA EXPLICATIVA] 3Esta dualidade indivíduo-coletivo está explícita também na obra Mil Platôs, mais especificamente no capítulo “Micropolítica e segmentaridade”. Gilles Deleuze e Félix Guattari (1996) afirmam que o homem é um animal segmentário e definem três figuras de segmentaridade que organizam o espaço vivido e a sociedade: a segmentaridade binária, que opera a partir de grandes oposições duais; a segmentaridade circular, que delineia círculos progressivos; a segmentaridade linear, que traça linhas retas, onde os segmentos representam episódios que se sucedem. É importante destacar que as três figuras não se excluem, mas, ao contrário, coexistem, entrecruzam-se, remetem umas às outras e transformam-se umas nas outras. É nesse sentido que um mesmo indivíduo pode se constituir em múltiplos indivíduos, dependendo de cada segmento que o componha.
É essa condição que confere a cada sistema vivo uma percepção do mundo que lhe é peculiar. Não pode haver dados externos válidos ou verdades absolutas, uma vez que estímulos externos determinam reações diferentes em estruturas diferentes. Do mesmo modo, a realidade é percebida de modos distintos por observadores distintos.
Analogamente a essa ordem de idéias, embora os objetivos de cada participante da rede ou observador virtual possam ser diferentes, podem confluir para uma mesma produção comum. Esses seriam basicamente os sustentáculos para uma comunidade virtual em ambos os casos descritos.
Ainda que Johnson advirta que mesmo os mais otimistas defensores da auto-organização sentem-se cautelosos quanto à falta de controle de um processo desse tipo, para este autor,
[...] entender a emergência sempre incluiu desistir de controle, deixar o sistema governar por si mesmo tanto quanto possível, deixá-lo aprender a partir de passos básicos. Já caminhamos bastante no sentido de entender a emergência, de forma a construir sistemas em escala pequena para nosso entretenimento e aperfeiçoamento, e também a apreciar mais cuidadosamente o comportamento emergente que já existe em cada escala de nossa experiência de vida. (JOHNSON, 2002, p. 174).
O que podemos dizer, a partir dos argumentos desses autores, ao fazerem analogias entre tipos de organização existentes na etologia com sistemas auto-organizáveis humanos, em nossa tentativa de responder às perguntas iniciais desse tópico, é que, por esse viés, é possível avaliar se uma comunidade é produtiva e autônoma dependendo de quem a estiver produzindo e do modo como podem agenciar ou selecionar seus afetos em um modo auto-organizativo. Desse modo, ela será boa para aquele cujo desejo se insere em sua autoprodução, motivado tanto pela temática abordada quanto pelas relações estabelecidas com os outros participantes e em relação a sua própria vida, durante o engajamento na comunidade. Desse ponto de vista, caberia à qualidade de produção das subjetividades envolvidas em uma comunidade manter seu curso ou simplesmente ser interrompida.
buzzine.info

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