1.3 Comunidade virtual e esfera pública
A comunidade virtual, termo cunhado por Howard Rheingold, comporta um deslocamento do centro da comunidade como a conhecíamos, exatamente por causa do despreendimento do aqui e agora. Palavras-chave para a comunidade virtual, segundo este autor, são: “interativo”, ‘convergência’, “ciberespaço” e “futuro digital”. Desse modo, ele afirma ser possível aplicar-se a mesma estratégia de fornecimento e utilização de informação através da rede a um domínio infinito de campos de aplicação, desde a crítica literária até a avaliação de softwares.
Comunidade virtual. O termo é conhecido mundialmente em 1993, com a publicação do livro The Community Virtual. [REFERENCIAR EM BIBLIO: Traduzido em língua portuguesa em 1996, sob o título A Comunidade Virtual. Nossas referencias seguem esta edição.]
É uma forma extraordinária de um grupo suficientemente grande e diversificado de indivíduos multiplicar inclusive o grau individual de conhecimento, conforme suas palavras:
[...] penso que tal pode ser conseguido mesmo que os indivíduos não estejam envolvidos noutras comunidades para além do local de emprego ou na área da especialidade, mas creio que a coisa resulta melhor quando o modelo conceitual das próprias atividades da comunidade inclui uma quantidade saudável de espírito construtivo, a par do espírito prático. (RHEINGOLD, 1996, p 52.)
As comunidades virtuais transformariam a Internet em um meio de comunicação de todos os meios de comunicação, cujas mensagens seriam novas formas de vida comunitária geradas pelos valores comuns construídos através da troca de conhecimentos, o que faria da Internet uma mídia viva Desde 1993, quando Rheingold apresentou seu conceito de comunidades virtuais, para caracterizar as comunidades em rede construídas através do ciberespaço, um grande debate teve início em torno do tipo de realidade que estas comunidades teriam ns sociedade contemporânea e no tipo de contribuição que elas trariam para o desenvolvimento da democracia. De acordo com essa nova orientação que implica a mudança do conceito tradicional de virtual, tanto no nível do conhecimento, da linguagem e da comunicação quanto no nível da presença física concreta, o deslocamento do tipo de pensamento e comportamento linear e universal, até então predominante no ocidente, é bem mais intenso, passando a se organizar sob a forma de associações mais complexas, considerando-se a multiplicidade de relações possíveis de serem criadas no ciberespaço ou reconfiguradas em espaços conhecidos. Nessa linha de raciocínio, um texto da pesquisadora de redes sociais Raquel Recuero, disponível na Internet, afirma que:
Além disso, um dos grandes problemas da aplicação do conceito de comunidade ao ciberespaço, para a definição da comunidade virtual, foi logo apontado por diversos pesquisadores: a ausência de uma base territorial, até então um dos sustentáculos da idéia de comunidade desenvolvida pela sociologia clássica. Com base nisso, comunidade virtual foi definida como uma comunidade sem um locus específico, com uma ’ausência de territorialidade’. Alguns autores, como Fernback e Thompson, utilizam em sua definição essa ausência do elemento território. No entanto, a própria Fernback reconhece em trabalho posterior (1999:36) a importância do espaço, citando Jones (1995) e dizendo que o conceito de comunidade virtual deve englobar tanto o social quanto o espacial. Outros, como Rheingold, utilizam o ciberespaço como o espaço onde as relações que formam a comunidade desenrolam-se, mas num espaço comunicativo. (RECUERO, 2000, p. 45).
Mas afinal, pergunta Recuero, não existiria “um locus, ou um território simbólico, ao qual a comunidade virtual esteja associada?” Vamos tentar responder essa pergunta, guiando-nos por um percurso apresentado em uma das noções de desterritorialização [NOTA] dos pensadores franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari.
Desterritorialização. Este conceito foi apresentado pela primeira vez, na obra Anti-Édipo. Deleuze e Guattari retornaram a esse conceito, sob outras formas de explicação, em obras posteriores escritas em co-autoria ou individualmente.
Ainda que tais noções contidas nas obras desses autores sejam anteriores ao advento da Internet, consideramos que sejam bastante úteis e atuais para acompanhar as respostas dadas, ao mesmo tempo, para as questões: quem pode ser considerado um participante de uma comunidade virtual e em que lugar ou espaço ele se encontra no mundo, em relação ao espaço público, como veremos mais adiante. Nesse sentido, Guattari afirma:
O ser humano contemporâneo é fundamentalmente desterritorializado. Com isso quero dizer que seus territórios etológicos originários – corpo, clã, aldeia, culto, corporação... – não estão mais dispostos em um ponto preciso da terra, mas se incrustam, no essencial, em universos incorporais. A subjetividade entrou no reino de um nomadismo generalizado. (GUATTARI, 2000, p. 169).
Ou seja, no seio dos espaços padronizados, tudo se tornou intercambiável, equivalente: há turistas, por exemplo, que fazem viagens quase imóveis,
[...] sendo depositados nos mesmos tipos de cabines de avião, de pullmann, de quartos de hotel e vendo desfilar diante de seus olhos paisagens que já encontraram cem vezes em suas telas de televisão ou em prospectos turísticos. Assim a subjetividade se encontra ameaçada de paralisia. (GUATTARI, 2000, p. 169).
O que podemos observar em termos de territorialidade de um indivíduo e conseqüentemente sua desterritorialização é que o espaço e o corpo, quando considerados por categorias – turista ou morador e membro de uma comunidade – ou por disciplinas – a arquitetura e a medicina, por exemplo – são apresentados a partir de categorias distintas, autônomas, como o próprio Guattari afirma, e ao mesmo tempo pré-codificadas. Desse ponto de vista, é de um modo bem diferente que as práticas sociais coletivas podem ser realizadas pela relação de um indivíduo com um computador inteligado à rede, tendo diante de si mais possibilidade e capacidade de criar relações de proximidade e de se comunicar com o mundo.
Um indivíduo pode estar em mais de um lugar simultaneamente; pode ser um turista sem estar longe de sua pátria e vice-versa; pode ser um usuário da rede e ao mesmo tempo artista e tecnólogo. O exemplo de Guattari do turista longe de sua pátria, mas estando no mesmo lugar, ou seja, sedentarizado, diz respeito a uma outra questão que introduzimos nesse momento que é a da construção da subjetividade. Até que ponto a tecnologia com sua redistribuição de espaço, conhecimento, arte e arquitetura visuais não estão mudando não apenas as experiências de espaço, mas transformando também o modo de concebê-lo?
Do mesmo modo como os termos grupos, organizações e instituições até bem pouco tempo nos remetiam a formas de representação com funções hierarquizadas, podemos dizer que a disposição atual de grupos e instituições nos termos de redes da Internet, nos remete a um modo de comunicação entre indivíduos de maneira bem mais descentralizada em relação ao poder. A Internet possui algumas características que a tornam única como um meio de comunicação e informação. Ela funciona num sistema fundado em redes vivas de comunicação que não possui, em princípio, limites ou barreiras. Ocupar esse espaço privilegiado para discussões, em tese, tem como ponto fundamental o que podemos chamar de uma crítica às noções de representação, principalmente em termos da democracia como é concebida na esfera macropolítica, ganhando contornos de efetiva participação interativa. Trata-se da possibilidade de um exercício democrático e de cidadania, num espaço não mais virtual, no sentido potencial, mas real, de poder estar sendo produzido em ato.
Se as novas tecnologias de informação e comunicação constituem o meio privilegiado para que essa nova forma de atuação seja possível, a questão das inter-relações entre os indivíduos e a criação de redes sociais informatizadas teria sua força devido à participação e a interação dos sujeitos que as integram. Assim, o sentido inovador de uma rede é estabelecido quando há um modo criativo de manter as conversações, usar as informações e dar início e continuidade às chamadas discussões na rede. Para esclarecer melhor essa argumentação, vamos nos servir de um trecho de um artigo de Costa, disponível na Internet:
Mais profundamente, o que se observa é que tanto a natureza dos novos suportes de comunicação como as exigências da vida econômica reclamam por uma nova ‘concepção’ do saber. O que acontece hoje é que o cotidiano das inovações tecnológicas acaba conduzindo a uma perspectiva na qual os conhecimentos são cada vez mais singulares e pertinentes a este ou àquele contexto.
Os percursos e perfis de conhecimentos e competências adquiridos por uma pessoa são todos singulares e podem cada vez menos se restringir programas ou cursos válidos para todos. Hoje, habitam-se espaços de conhecimentos abertos, contínuos e não-lineares, que se reorganizam segundo o contexto de cada um. A pesquisa, por seu lado, torna-se cada vez mais transdisciplinar, desafiando toda a organização hierárquica das disciplinas conhecidas. (COSTA, 2005, p. 9 )
Entendemos então que, a partir de uma nova composição de relações de saber ou de forças em relação, antigas relações sociais instituídas puderam se abrir para novas formas de conhecimento, de percepção, de afetos, de políticas, enfim, de redes inteiramente permeáveis, capazes de fazer inaugurar novas composições, formar uma, duas ou mais redes, que por sua vez podem se rizomatizar em outras redes mais, nas quais um mesmo sujeito pode intervir em diferentes esferas sociais.
Essa mudança de hábitos na comunicação mudou uma nova maneira de se viver em comunidade por meio do que Wellman e Berkowiktz denominam de laços sociais. A esse respeito, afirmam:
Redefinindo o problema em termos estruturais, pesquisadores têm sido capazes de demonstrar que os medos da antiga geração de sociólogos sobre a perda da comunidade foi, se não simplesmente incorreto, ao menos incompleto. A comunidade, argumentam os analistas estruturais, raramente desaparecem das sociedades urbanas industriais. Ela foi transformada: novas formas de comunidade surgiram no lugar das antigas formas. Elas podem ser vistas se os analistas focam nos laços sociais e nos sistemas informais de troca de recursos, ao invés de focar nas pessoas vivendo em vizinhanças e pequenas cidades. (WELLMAN; BERKOWIKTZ, 1988, MIMEO)
Em suma, o aumento das interconexões, da complexidade e da mudança de linguagem digital pode acarretar a mudança dos próprios indivíduos pela necessidade de se comunicar. Trata-se não somente de se mostrar, mas também de mudar sua forma de apresentação em comunidade, em função das evoluções que ocorrem no próprio grupo ao qual se sinta pertencente por motivações ou ligações afetivas. Como diz Lévy: “os grupos e as pessoas possuem cada vez mais um ’corpo informacional‘ constituído por suas preferências: “websites, agentes de software e pelo conjunto de informações e mensagens a ele referenciadas que circulam no ciberespaço”. (LEVY, 2002, p. 370).
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