1.2 Noção de comunidade antes e depois da Internet
Como vimos até agora, no ambiente do ciberespaço, cuja característica mais visível é a comunicação em redes de alta densidade, os indivíduos podem se conectar com outros e também viver em comunidade. Pode não ser a mesma comunidade de outrora, concreta, caracterizada num primeiro momento pela relação de parentesco e depois pela noção de aproximação ou vizinhança, mas é igualmente real. Nesse sentido, também, muitos teóricos do fenômeno da globalização estudam hoje o fenômeno da transmutação do sentido do termo comunidade para redes sociais, ou seja, pode-se dizer que se dedicam a investigar as noções de comunidade antes e depois da Internet, em relação a sua participação na esfera pública.
A esse respeito, destacamos alguns percursos realizados por Rogério da Costa, em alguns de seus textos disponíveis na Internet, como o que se segue:
[...] a comunidade implica uma "obrigação fraterna de partilhar as vantagens entre seus membros, independente do talento ou importância deles", indivíduos egoístas, que percebem o mundo pela ótica do mérito (os cosmopolitas), não teriam nada a "ganhar com a bem-tecida rede de obrigações comunitárias, e muito que perder se forem capturados por ela" (BAUMAN, 2003, p. 59 apud COSTA, 2005).
Para este autor, comunidade e liberdade seriam conceitos que estariam em conflito, pois o sentido de comunidade é tecido de compromissos de longo prazo, de direitos inalienáveis e obrigações inabaláveis:
[...] e os compromissos que tornariam ética a comunidade seriam do tipo do 'compartilhamento fraterno’, reafirmando o direito de todos a um seguro comunitário contra os erros e desventuras que são os riscos inseparáveis da vida individual. (BAUMAN, 2003, p. 57 apud COSTA, 2005).
Já os pensadores Barry Wellman & Stephen Berkowitz, tendo como ponto de partida o fato de nos encontrarmos associados em rede, realizam uma análise mais complexa, dando outro sentido ao conceito de comunidade:
Enquanto a maioria das pessoas sabe que elas próprias possuem laços comunitários abundantes e úteis, elas com freqüência acreditam que muitas outras não os têm. Como evidência, invocam imagens comuns de massas de indivíduos se empurrando e se acotovelando no caminho em ruas abarrotadas, pessoas solitárias sentadas diante da televisão, hordas caminhando nas ruas em manifestações ou fileiras de empregados diante de suas máquinas ou computadores. (WELLMAN; BERKOWITZ, 1988, p. 123)
Ou seja, os autores caminham na direção de se pensar as relações de comunidade na rede mais como comunidades pessoais e, a esse respeito, Rogério da Costa comenta:
Isto significa que cada um de nós possui uma visão clara da rede de relacionamentos à qual pertence, mas não é possível perceber facilmente a rede à qual os outros pertencem. Isso inclui não apenas aqueles que não conhecemos, mas também os que fazem parte de nossas relações. Pessoas que conhecemos e com quem temos laços fracos, como afirma Granovetter (1974), possuem muito provavelmente laços fortes com uma rede outra que desconhecemos (COSTA, 2005, p. 4).
Se vários sociólogos urbanos ainda dizem que o tamanho, a densidade e heterogeneidade das cidades contemporâneas têm alimentado laços superficiais, transitórios, especializados e desconectados nas vizinhanças e ruas, Wellman e Berkowitz (1988) afirmam que várias análises sofrem de uma ‘síndrome pastoral’, ao compararem nostalgicamente as comunidades contemporâneas com os supostos ‘velhos bons tempos’.
Desse ponto de vista sociológico, práticas sociais de cooperação na rede, discussões de conteúdos especializados ou debates políticos públicos, não poderiam subsistir e ser desenvolvidos. Constatamos em nossa experiência nos infocentros comunitários do ACESSA SP, como vamos exemplificar mais adiante no Capítulo 3, os laços interpessoais nas relações conectadas, não apenas em termos numéricos, crescem e têm o poder de se desenvolver em termos de efetiva participação extensa e integrada com sua própria comunidade de origem.
As novas técnicas de coleta de dados e informações, a facilidade de comunicação e os mecanismos de seleção da opinião pública, baseada em regiões, temas afins e tantas outras dimensões podem fazer diminuir consideravelmente a distância entre localidades que muitas vezes não possuem comunidade de suporte, redes sociais ou laços de parentesco consistentes com a novas comunidades emergentes de cooperação.
Além disso, como nos indica Costa:
Analisando-se sociedades de países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos, constata-se que muitas localidades não possuem comunidades de suporte, redes sociais ou laços de parentesco consistentes. Para Wellman & Berkowitz (1988), esses estudos mostram que “as relações dentro dessas sociedades pré-industriais são em geral hierárquicas, com laços de exploração especializados, com uma profunda divisão separando facções”. Além disso, historiadores têm sistematicamente usado fontes demográficas e de arquivo para demonstrar que muitas comunidades pré-revolução industrial eram menos solidárias do que se pensava. (COSTA, 2005, p.125).
Com essas considerações, buscamos indicar principalmente aquilo que muitos teóricos das redes sociais vêm apontando: a emergência de uma mudança no modo de se compreender o conceito de comunidade nas últimas décadas, ou período pós-industrial, devido à complexidade das novas relações interpessoais, dentre elas as relações na comunidade virtual, cuja realidade tornou-se possível graças à Internet.
buzzine.info

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