1 POSSIBILIDADES DEMOCRÁTICAS VIRTUAIS
Este capítulo apresenta parte de nossa investigação teórica sobre práticas sociais coletivas que só se tornaram possíveis nas últimas duas décadas com a emergência da chamada sociedade da informação.
Com o pressuposto de que as novas tecnologias de informação e comunicação promovem uma nova perspectiva de relações sociais interligadas em redes de cooperação, vamos tentar responder à pergunta: por que, devido às novas tecnologias de informação e comunicação, as sociedades passam por transformações capazes de tornarem as pessoas mais permeáveis à participação coletiva na esfera pública?
Para caminhar nessa direção, consideramos importante esclarecer algumas referências que nortearam a realização deste capítulo inicial:
a) Primeiramente tomamos como base uma análise contextual realizada pelo cientista social Manuel Castells, na qual discorre sobre o surgimento da era da informação e da revolução tecnológica na comunicação. Nesse sentido, a sociedade em rede, devido a sua penetrabilidade em todas as esferas da atividade humana, é o ponto inicial de uma metodologia deste autor que, como afirma, pretende analisar a complexidade de uma nova economia, sociedade e cultura em formação, principalmente desde a última década do século XX.
b) Ao longo do percurso, foram consultados vários autores contemporâneos, que nos propiciaram investigar noções da formação da sociedade contemporânea antes e depois da Internet, de modo a que pudéssemos analisar de que modo surgem grupos e comunidades interativos no espaço virtual. Consideramos bastante oportuno realizar também uma busca em revistas especializadas, revistas eletrônicas e diversos sites, a fim de acompanhar o debate em uma literatura bem recente Nessa busca, as várias intersecções de condições de emergência e ou disseminação de novas práticas de produção coletiva nesse novo espaço, que se baseia numa geografia bem diversa de territórios fixos, nos permitiram que diagramássemos esse estudo na área de semiótica e comunicação
c) É importante salientar que as seleções teóricas e explicações presentes neste capítulo estarão sempre nos direcionando para o tema central de nossa dissertação que consiste na participação pública e no estudo de caso selecionado na experiência de inclusão digital no programa Acessa SP, o Fala SP, como serão abordados nos capítulos seguintes.
A revolução concentrada nas tecnologias da informação foi remodelando a base material da sociedade: “a economia das nações passou a manter rapidamente interdependência global, desenhando uma nova forma de relação entre a economia, o Estado e a sociedade”.
Fundamentalmente, a flexibilidade no gerenciamento de produção dos sistemas aumentou, devido à descentralização e à organização de produção, e, ao mesmo tempo, houve individualização e diversificação cada vez maior das relações de trabalho, entre muitos outros fatores positivos que o autor enumera em seu livro.
O processo de trabalho, uma das transformações mais positivas consideradas pelo autor, e que está relacionado com a transformação do mercado de trabalho ativo e das relações produtivas na rede, situa-se no cerne da estrutura social contemporânea. Tratando-se do impacto específico das tecnologias nesse campo, sua visão é de que o tipo de rede de visualização mais fácil para representar o espaço de fluxos é a “rede constituída pelos sistemas de processos decisórios da economia global”. E, nesse caso, explicita, desenha-se a ’cidade global’ enquanto um processo em vez de um lugar definido.. Baseados na afirmação de Castells de que o espaço é “a expressão da sociedade”, as sociedades, ao verem inauguradas novas formas e processos espaciais, só possíveis graças às revolucionárias tecnologias de informação e comunicação, se transformaram estruturalmente. Para ele, entender a lógica de tais transformações não é uma tarefa fácil,
[...] porque o conhecimento, aparentemente simples, de uma relação significativa entre sociedade e espaço esconde uma complexidade fundamental, uma vez que o espaço não é reflexo da sociedade, é sua expressão. Em outras palavras: o espaço não é uma fotocópia da sociedade, é a sociedade. As formas e os processos espaciais são constituídos pela dinâmica de toda a estrutura social. Há inclusão de tendências contraditórias derivadas de conflitos e estratégias entre atores sociais que representam interesses e valores opostos. Ademais, os processos sociais exercem influência no espaço, atuando no ambiente construído, herdado das estruturas sócio-espaciais anteriores. Na verdade, espaço é tempo cristalizado. (CASTELLS, 1999, p. 435).
Para este sociólogo, se, do ponto de vista da física, o espaço não pode ser definido fora da dinâmica da matéria, em teoria social, espaço não pode ser definido sem referência às práticas sociais, as quais envolvem produtos que, por sua vez, envolvem relações sociais e históricas que dão ao espaço uma forma, uma função e um sentido social. Castells prossegue sua análise afirmando que, do ponto de vista da teoria social, o espaço é o suporte material de práticas sociais de tempo compartilhado. Por práticas sociais de tempo compartilhado, o autor faz referência ao fato de o espaço reunir essas práticas que são simultâneas no tempo. Para ele, é essencial a separação do conceito básico de suporte material de práticas simultâneas da noção tradicional de contigüidade. Só assim é possível a existência de suportes materiais de simultaneidade que não dependam de contigüidade física, visto que é este o caso das práticas sociais predominantes na era da informação.
Com o advento do novo espaço como meio de comunicação privilegiado - o ciberespaço, como é mais conhecido pelos internautas desde os anos 90 - a rede informatizada surge sob a forma de associações complexas de informações, que é considerada por muitos agentes como uma espécie de agenda social comum, onde um grande número de dados informatizados pode ser disponibilizado e, com isso, democratizado. Podemos dizer que esse espaço não concreto, mas igualmente real e virtual, reconfigura os modos de relação entre as pessoas em comunidade e, com isso, a própria estrutura de poder centralizado.
A facilidade e a velocidade do uso e da troca de informações pela Internet passa a ter um papel central na nova sociedade, tanto em termos de circulação de capital quanto de formação de novos diagramas sociais e culturais, novas subjetividades e, conseqüentemente, novas concepções de comunidades que passam a ser, ao mesmo tempo, reais e virtuais.
Como vimos até agora, no ambiente do ciberespaço, cuja característica mais visível é a comunicação em redes de alta densidade, os indivíduos podem se conectar com outros e também viver em comunidade. Pode não ser a mesma comunidade de outrora, concreta, caracterizada num primeiro momento pela relação de parentesco e depois pela noção de aproximação ou vizinhança, mas é igualmente real. Nesse sentido, também, muitos teóricos do fenômeno da globalização estudam hoje o fenômeno da transmutação do sentido do termo comunidade para redes sociais, ou seja, pode-se dizer que se dedicam a investigar as noções de comunidade antes e depois da Internet, em relação a sua participação na esfera pública.
A esse respeito, destacamos alguns percursos realizados por Rogério da Costa, em alguns de seus textos disponíveis na Internet, como o que se segue:
[...] a comunidade implica uma "obrigação fraterna de partilhar as vantagens entre seus membros, independente do talento ou importância deles", indivíduos egoístas, que percebem o mundo pela ótica do mérito (os cosmopolitas), não teriam nada a "ganhar com a bem-tecida rede de obrigações comunitárias, e muito que perder se forem capturados por ela" (BAUMAN, 2003, p. 59 apud COSTA, 2005).
Para este autor, comunidade e liberdade seriam conceitos que estariam em conflito, pois o sentido de comunidade é tecido de compromissos de longo prazo, de direitos inalienáveis e obrigações inabaláveis:
[...] e os compromissos que tornariam ética a comunidade seriam do tipo do 'compartilhamento fraterno’, reafirmando o direito de todos a um seguro comunitário contra os erros e desventuras que são os riscos inseparáveis da vida individual. (BAUMAN, 2003, p. 57 apud COSTA, 2005).
Já os pensadores Barry Wellman & Stephen Berkowitz, tendo como ponto de partida o fato de nos encontrarmos associados em rede, realizam uma análise mais complexa, dando outro sentido ao conceito de comunidade:
Enquanto a maioria das pessoas sabe que elas próprias possuem laços comunitários abundantes e úteis, elas com freqüência acreditam que muitas outras não os têm. Como evidência, invocam imagens comuns de massas de indivíduos se empurrando e se acotovelando no caminho em ruas abarrotadas, pessoas solitárias sentadas diante da televisão, hordas caminhando nas ruas em manifestações ou fileiras de empregados diante de suas máquinas ou computadores. (WELLMAN; BERKOWITZ, 1988, p. 123)
Ou seja, os autores caminham na direção de se pensar as relações de comunidade na rede mais como comunidades pessoais e, a esse respeito, Rogério da Costa comenta:
Isto significa que cada um de nós possui uma visão clara da rede de relacionamentos à qual pertence, mas não é possível perceber facilmente a rede à qual os outros pertencem. Isso inclui não apenas aqueles que não conhecemos, mas também os que fazem parte de nossas relações. Pessoas que conhecemos e com quem temos laços fracos, como afirma Granovetter (1974), possuem muito provavelmente laços fortes com uma rede outra que desconhecemos (COSTA, 2005, p. 4).
Se vários sociólogos urbanos ainda dizem que o tamanho, a densidade e heterogeneidade das cidades contemporâneas têm alimentado laços superficiais, transitórios, especializados e desconectados nas vizinhanças e ruas, Wellman e Berkowitz (1988) afirmam que várias análises sofrem de uma ‘síndrome pastoral’, ao compararem nostalgicamente as comunidades contemporâneas com os supostos ‘velhos bons tempos’.
Desse ponto de vista sociológico, práticas sociais de cooperação na rede, discussões de conteúdos especializados ou debates políticos públicos, não poderiam subsistir e ser desenvolvidos. Constatamos em nossa experiência nos infocentros comunitários do ACESSA SP, como vamos exemplificar mais adiante no Capítulo 3, os laços interpessoais nas relações conectadas, não apenas em termos numéricos, crescem e têm o poder de se desenvolver em termos de efetiva participação extensa e integrada com sua própria comunidade de origem.
As novas técnicas de coleta de dados e informações, a facilidade de comunicação e os mecanismos de seleção da opinião pública, baseada em regiões, temas afins e tantas outras dimensões podem fazer diminuir consideravelmente a distância entre localidades que muitas vezes não possuem comunidade de suporte, redes sociais ou laços de parentesco consistentes com a novas comunidades emergentes de cooperação.
Além disso, como nos indica Costa:
Analisando-se sociedades de países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos, constata-se que muitas localidades não possuem comunidades de suporte, redes sociais ou laços de parentesco consistentes. Para Wellman & Berkowitz (1988), esses estudos mostram que “as relações dentro dessas sociedades pré-industriais são em geral hierárquicas, com laços de exploração especializados, com uma profunda divisão separando facções”. Além disso, historiadores têm sistematicamente usado fontes demográficas e de arquivo para demonstrar que muitas comunidades pré-revolução industrial eram menos solidárias do que se pensava. (COSTA, 2005, p.125).
Com essas considerações, buscamos indicar principalmente aquilo que muitos teóricos das redes sociais vêm apontando: a emergência de uma mudança no modo de se compreender o conceito de comunidade nas últimas décadas, ou período pós-industrial, devido à complexidade das novas relações interpessoais, dentre elas as relações na comunidade virtual, cuja realidade tornou-se possível graças à Internet.
A comunidade virtual, termo cunhado por Howard Rheingold, comporta um deslocamento do centro da comunidade como a conhecíamos, exatamente por causa do despreendimento do aqui e agora. Palavras-chave para a comunidade virtual, segundo este autor, são: “interativo”, ‘convergência’, “ciberespaço” e “futuro digital”. Desse modo, ele afirma ser possível aplicar-se a mesma estratégia de fornecimento e utilização de informação através da rede a um domínio infinito de campos de aplicação, desde a crítica literária até a avaliação de softwares.
Comunidade virtual. O termo é conhecido mundialmente em 1993, com a publicação do livro The Community Virtual. [REFERENCIAR EM BIBLIO: Traduzido em língua portuguesa em 1996, sob o título A Comunidade Virtual. Nossas referencias seguem esta edição.]
É uma forma extraordinária de um grupo suficientemente grande e diversificado de indivíduos multiplicar inclusive o grau individual de conhecimento, conforme suas palavras:
[...] penso que tal pode ser conseguido mesmo que os indivíduos não estejam envolvidos noutras comunidades para além do local de emprego ou na área da especialidade, mas creio que a coisa resulta melhor quando o modelo conceitual das próprias atividades da comunidade inclui uma quantidade saudável de espírito construtivo, a par do espírito prático. (RHEINGOLD, 1996, p 52.)
As comunidades virtuais transformariam a Internet em um meio de comunicação de todos os meios de comunicação, cujas mensagens seriam novas formas de vida comunitária geradas pelos valores comuns construídos através da troca de conhecimentos, o que faria da Internet uma mídia viva Desde 1993, quando Rheingold apresentou seu conceito de comunidades virtuais, para caracterizar as comunidades em rede construídas através do ciberespaço, um grande debate teve início em torno do tipo de realidade que estas comunidades teriam ns sociedade contemporânea e no tipo de contribuição que elas trariam para o desenvolvimento da democracia. De acordo com essa nova orientação que implica a mudança do conceito tradicional de virtual, tanto no nível do conhecimento, da linguagem e da comunicação quanto no nível da presença física concreta, o deslocamento do tipo de pensamento e comportamento linear e universal, até então predominante no ocidente, é bem mais intenso, passando a se organizar sob a forma de associações mais complexas, considerando-se a multiplicidade de relações possíveis de serem criadas no ciberespaço ou reconfiguradas em espaços conhecidos. Nessa linha de raciocínio, um texto da pesquisadora de redes sociais Raquel Recuero, disponível na Internet, afirma que:
Além disso, um dos grandes problemas da aplicação do conceito de comunidade ao ciberespaço, para a definição da comunidade virtual, foi logo apontado por diversos pesquisadores: a ausência de uma base territorial, até então um dos sustentáculos da idéia de comunidade desenvolvida pela sociologia clássica. Com base nisso, comunidade virtual foi definida como uma comunidade sem um locus específico, com uma ’ausência de territorialidade’. Alguns autores, como Fernback e Thompson, utilizam em sua definição essa ausência do elemento território. No entanto, a própria Fernback reconhece em trabalho posterior (1999:36) a importância do espaço, citando Jones (1995) e dizendo que o conceito de comunidade virtual deve englobar tanto o social quanto o espacial. Outros, como Rheingold, utilizam o ciberespaço como o espaço onde as relações que formam a comunidade desenrolam-se, mas num espaço comunicativo. (RECUERO, 2000, p. 45).
Mas afinal, pergunta Recuero, não existiria “um locus, ou um território simbólico, ao qual a comunidade virtual esteja associada?” Vamos tentar responder essa pergunta, guiando-nos por um percurso apresentado em uma das noções de desterritorialização [NOTA] dos pensadores franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari.
Desterritorialização. Este conceito foi apresentado pela primeira vez, na obra Anti-Édipo. Deleuze e Guattari retornaram a esse conceito, sob outras formas de explicação, em obras posteriores escritas em co-autoria ou individualmente.
Ainda que tais noções contidas nas obras desses autores sejam anteriores ao advento da Internet, consideramos que sejam bastante úteis e atuais para acompanhar as respostas dadas, ao mesmo tempo, para as questões: quem pode ser considerado um participante de uma comunidade virtual e em que lugar ou espaço ele se encontra no mundo, em relação ao espaço público, como veremos mais adiante. Nesse sentido, Guattari afirma:
O ser humano contemporâneo é fundamentalmente desterritorializado. Com isso quero dizer que seus territórios etológicos originários – corpo, clã, aldeia, culto, corporação... – não estão mais dispostos em um ponto preciso da terra, mas se incrustam, no essencial, em universos incorporais. A subjetividade entrou no reino de um nomadismo generalizado. (GUATTARI, 2000, p. 169).
Ou seja, no seio dos espaços padronizados, tudo se tornou intercambiável, equivalente: há turistas, por exemplo, que fazem viagens quase imóveis,
[...] sendo depositados nos mesmos tipos de cabines de avião, de pullmann, de quartos de hotel e vendo desfilar diante de seus olhos paisagens que já encontraram cem vezes em suas telas de televisão ou em prospectos turísticos. Assim a subjetividade se encontra ameaçada de paralisia. (GUATTARI, 2000, p. 169).
O que podemos observar em termos de territorialidade de um indivíduo e conseqüentemente sua desterritorialização é que o espaço e o corpo, quando considerados por categorias – turista ou morador e membro de uma comunidade – ou por disciplinas – a arquitetura e a medicina, por exemplo – são apresentados a partir de categorias distintas, autônomas, como o próprio Guattari afirma, e ao mesmo tempo pré-codificadas. Desse ponto de vista, é de um modo bem diferente que as práticas sociais coletivas podem ser realizadas pela relação de um indivíduo com um computador inteligado à rede, tendo diante de si mais possibilidade e capacidade de criar relações de proximidade e de se comunicar com o mundo.
Um indivíduo pode estar em mais de um lugar simultaneamente; pode ser um turista sem estar longe de sua pátria e vice-versa; pode ser um usuário da rede e ao mesmo tempo artista e tecnólogo. O exemplo de Guattari do turista longe de sua pátria, mas estando no mesmo lugar, ou seja, sedentarizado, diz respeito a uma outra questão que introduzimos nesse momento que é a da construção da subjetividade. Até que ponto a tecnologia com sua redistribuição de espaço, conhecimento, arte e arquitetura visuais não estão mudando não apenas as experiências de espaço, mas transformando também o modo de concebê-lo?
Do mesmo modo como os termos grupos, organizações e instituições até bem pouco tempo nos remetiam a formas de representação com funções hierarquizadas, podemos dizer que a disposição atual de grupos e instituições nos termos de redes da Internet, nos remete a um modo de comunicação entre indivíduos de maneira bem mais descentralizada em relação ao poder. A Internet possui algumas características que a tornam única como um meio de comunicação e informação. Ela funciona num sistema fundado em redes vivas de comunicação que não possui, em princípio, limites ou barreiras. Ocupar esse espaço privilegiado para discussões, em tese, tem como ponto fundamental o que podemos chamar de uma crítica às noções de representação, principalmente em termos da democracia como é concebida na esfera macropolítica, ganhando contornos de efetiva participação interativa. Trata-se da possibilidade de um exercício democrático e de cidadania, num espaço não mais virtual, no sentido potencial, mas real, de poder estar sendo produzido em ato.
Se as novas tecnologias de informação e comunicação constituem o meio privilegiado para que essa nova forma de atuação seja possível, a questão das inter-relações entre os indivíduos e a criação de redes sociais informatizadas teria sua força devido à participação e a interação dos sujeitos que as integram. Assim, o sentido inovador de uma rede é estabelecido quando há um modo criativo de manter as conversações, usar as informações e dar início e continuidade às chamadas discussões na rede. Para esclarecer melhor essa argumentação, vamos nos servir de um trecho de um artigo de Costa, disponível na Internet:
Mais profundamente, o que se observa é que tanto a natureza dos novos suportes de comunicação como as exigências da vida econômica reclamam por uma nova ‘concepção’ do saber. O que acontece hoje é que o cotidiano das inovações tecnológicas acaba conduzindo a uma perspectiva na qual os conhecimentos são cada vez mais singulares e pertinentes a este ou àquele contexto.
Os percursos e perfis de conhecimentos e competências adquiridos por uma pessoa são todos singulares e podem cada vez menos se restringir programas ou cursos válidos para todos. Hoje, habitam-se espaços de conhecimentos abertos, contínuos e não-lineares, que se reorganizam segundo o contexto de cada um. A pesquisa, por seu lado, torna-se cada vez mais transdisciplinar, desafiando toda a organização hierárquica das disciplinas conhecidas. (COSTA, 2005, p. 9 )
Entendemos então que, a partir de uma nova composição de relações de saber ou de forças em relação, antigas relações sociais instituídas puderam se abrir para novas formas de conhecimento, de percepção, de afetos, de políticas, enfim, de redes inteiramente permeáveis, capazes de fazer inaugurar novas composições, formar uma, duas ou mais redes, que por sua vez podem se rizomatizar em outras redes mais, nas quais um mesmo sujeito pode intervir em diferentes esferas sociais.
Essa mudança de hábitos na comunicação mudou uma nova maneira de se viver em comunidade por meio do que Wellman e Berkowiktz denominam de laços sociais. A esse respeito, afirmam:
Redefinindo o problema em termos estruturais, pesquisadores têm sido capazes de demonstrar que os medos da antiga geração de sociólogos sobre a perda da comunidade foi, se não simplesmente incorreto, ao menos incompleto. A comunidade, argumentam os analistas estruturais, raramente desaparecem das sociedades urbanas industriais. Ela foi transformada: novas formas de comunidade surgiram no lugar das antigas formas. Elas podem ser vistas se os analistas focam nos laços sociais e nos sistemas informais de troca de recursos, ao invés de focar nas pessoas vivendo em vizinhanças e pequenas cidades. (WELLMAN; BERKOWIKTZ, 1988, MIMEO)
Em suma, o aumento das interconexões, da complexidade e da mudança de linguagem digital pode acarretar a mudança dos próprios indivíduos pela necessidade de se comunicar. Trata-se não somente de se mostrar, mas também de mudar sua forma de apresentação em comunidade, em função das evoluções que ocorrem no próprio grupo ao qual se sinta pertencente por motivações ou ligações afetivas. Como diz Lévy: “os grupos e as pessoas possuem cada vez mais um ’corpo informacional‘ constituído por suas preferências: “websites, agentes de software e pelo conjunto de informações e mensagens a ele referenciadas que circulam no ciberespaço”. (LEVY, 2002, p. 370).
Quando nos sentimos pertencentes a um grupo?
Como avaliar o desenvolvimento qualitativo de produções nas comunidades virtuais?
Quais seriam os requisitos para uma comunidade ser considerada convidativa à nossa participação, a despeito das tecnologias visuais desenvolvidas?
O que são comunidades vivas?
Para responder num nível introdutório a essas perguntas, nos servimos de uma composição teórica de duas obras: A Árvore do Conhecimento, de Maturana e Varella e Emergência, de Steven Johnson. Esses autores utilizaram comparações, que poderíamos chamar de didáticas, para conceituar os sistemas de autonomia e autoprodução em coletividade, baseados na lógica dos seres vivos. Faremos então a seguir uma síntese de suas principais proposições.
Johnson, pensador do ciberespaço e conhecido como o ‘pensador da emergência’ nos explica:
Imagine poder acompanhar conceitualmente um instantâneo de vida em movimento daqui a dois ou três anos – um movimento de escala em escala, como no fabuloso filme de Charles e Ray Earnes, Powers of Tea, que começa com uma vista da Via Láctea e dali faz um zoom até uma pessoa em um parque de Chicago e depois prossegue até as partículas subatômicas na mão do personagem.
Só que em nosso longo zoom encontramos, em cada escala, o mesmo comportamento repetindo-se inúmeras vezes. Comecemos na escala da própria cidade, suas comunidades pulsando e prosperando como fazem há séculos, enviando sinais para o mundo e atraindo seres humanos para dentro delas, como enormes imãs globais. O fluxo de pessoas na cidade é agora regulado por uma inteligente rede de tráfego, que evolui e aprende em resposta aos padrões do movimento de automóveis Você e eu vivemos em um desses imensos sistemas, contribuindo para seus contínuo desenvolvimento [...] e como parte de nossa vida na cidade, nos entretemos simulando, em um jogo na tela de nosso computador, a energia auto-organizável da vida urbana, construindo comunidades virtuais juntamente com milhares de outros jogadores ligados em rede no mundo todo. Na escala da cidade e na escala da tela, nossas vidas englobam os poderes da emergência (JOHNSON, 2002, p. 173-174).
De acordo com uma lógica própria, o autor faz uma série de perguntas, antes de tecer suas conclusões relativas à questão da auto-organização das redes de computadores, nos sistemas emergentes:
Pode essa cadeia [a emergência] se estender em novas direções, tanto na escala atômica da informação digital, quanto na macroescala dos movimentos coletivos? Será que os novos movimentos políticos vão se modelar explicitamente a partir da inteligência distribuída da colônia de formigas ou da comunidade da cidade? Será que existe um estágio na rede em desenvolvimento da emergência que nos leve, para além dos leitores da mentes, para algo ainda mais parecido com a vida? (JOHNSON, 2002).
Para o autor, certamente o mundo nunca esteve tão bem preparado para que esses desenvolvimentos se tornem realidade. Ele acredita que já existem muitas tentativas para se entrar na que denomina a quarta fase da emergência, ou seja, num sistema que funcione como o de uma colônia de formigas africanas, que não tem centro de poder, a base piramidal é muito ampla e há uma lógica imanente ou inteligente de auto-organização própria das formigas obreiras. Nesse caso, fazendo uma analogia à pirâmide tradicional do poder e das classes sociais, constatamos que há uma inversão: o formigueiro todo ganha visibilidade e não apenas um comandante ou uma cúpula de elite – no caso a formiga rainha – que comande um processo de produção coletiva. Analogamente, este seria o sentido do sistema de auto-organização das comunidades virtuais de um futuro próximo.
A noção de autopoiese tornou-se conhecida na literatura internacional, em 1974, a partir da obra Árvore do Conhecimento, de Maturana e Varela.
Autopoiese. Podemos dizer esta noção - que quer dizer autoprodução - caminha paralelamente a um tipo de pensamento de auto-organização da vida coletiva, fundado a partir de um ponto de vista da lógica do sistema dos seres vivos – etologia - sob a forma de um determinismo estrutural.
De acordo com o sentido expresso no livro, o termo define os seres vivos como sistemas que produzem continuamente a si mesmos. Esses sistemas são autopoiéticos por definição, porque recompõem continuamente seus componentes desgastados. São seres de produções moleculares, onde há uma circularidade, onde as moléculas reproduzem a mesma rede que as produziram.
Assim, um sistema autopoiético é ao mesmo tempo produtor e produto. Maturana afirma que o termo traduz o que chamou de ‘centro da dinâmica constitutiva dos seres vivos’. Para exercê-lo, eles precisam recorrer a recursos do meio ambiente e são, por isso, ao mesmo tempo autônomos e dependentes. Entretanto, não se está tratando aqui de um paradoxo? Autonomia x dependência?
Segundo Maturana, essa condição paradoxal só pode ser entendida pela lógica da complexidade dos seres vivos, que não pode ser compreendida dentro da lógica do pensamento linear, no qual tudo se reduz à binariedade do sim/não ou do ou/ou. Em outras palavras: funciona-se por composição de relações e não por partes separadas ou excludentes e há um empenho coletivo pela busca das relações dinâmicas entre essas partes(3) .
[NOTA EXPLICATIVA] 3Esta dualidade indivíduo-coletivo está explícita também na obra Mil Platôs, mais especificamente no capítulo “Micropolítica e segmentaridade”. Gilles Deleuze e Félix Guattari (1996) afirmam que o homem é um animal segmentário e definem três figuras de segmentaridade que organizam o espaço vivido e a sociedade: a segmentaridade binária, que opera a partir de grandes oposições duais; a segmentaridade circular, que delineia círculos progressivos; a segmentaridade linear, que traça linhas retas, onde os segmentos representam episódios que se sucedem. É importante destacar que as três figuras não se excluem, mas, ao contrário, coexistem, entrecruzam-se, remetem umas às outras e transformam-se umas nas outras. É nesse sentido que um mesmo indivíduo pode se constituir em múltiplos indivíduos, dependendo de cada segmento que o componha.
É essa condição que confere a cada sistema vivo uma percepção do mundo que lhe é peculiar. Não pode haver dados externos válidos ou verdades absolutas, uma vez que estímulos externos determinam reações diferentes em estruturas diferentes. Do mesmo modo, a realidade é percebida de modos distintos por observadores distintos.
Analogamente a essa ordem de idéias, embora os objetivos de cada participante da rede ou observador virtual possam ser diferentes, podem confluir para uma mesma produção comum. Esses seriam basicamente os sustentáculos para uma comunidade virtual em ambos os casos descritos.
Ainda que Johnson advirta que mesmo os mais otimistas defensores da auto-organização sentem-se cautelosos quanto à falta de controle de um processo desse tipo, para este autor,
[...] entender a emergência sempre incluiu desistir de controle, deixar o sistema governar por si mesmo tanto quanto possível, deixá-lo aprender a partir de passos básicos. Já caminhamos bastante no sentido de entender a emergência, de forma a construir sistemas em escala pequena para nosso entretenimento e aperfeiçoamento, e também a apreciar mais cuidadosamente o comportamento emergente que já existe em cada escala de nossa experiência de vida. (JOHNSON, 2002, p. 174).
O que podemos dizer, a partir dos argumentos desses autores, ao fazerem analogias entre tipos de organização existentes na etologia com sistemas auto-organizáveis humanos, em nossa tentativa de responder às perguntas iniciais desse tópico, é que, por esse viés, é possível avaliar se uma comunidade é produtiva e autônoma dependendo de quem a estiver produzindo e do modo como podem agenciar ou selecionar seus afetos em um modo auto-organizativo. Desse modo, ela será boa para aquele cujo desejo se insere em sua autoprodução, motivado tanto pela temática abordada quanto pelas relações estabelecidas com os outros participantes e em relação a sua própria vida, durante o engajamento na comunidade. Desse ponto de vista, caberia à qualidade de produção das subjetividades envolvidas em uma comunidade manter seu curso ou simplesmente ser interrompida.
Já no século XVIII, o filósofo holandês Baruch de Spinoza dizia que o espaço social é constituído por encontros de corpos misturados com o que os afetam e o que afetam outros corpos, de onde surgem novos registros de relações e práticas sociais não codificadas, mas num modo de expressão comum, a partir de um plano comum de encontros de corpos e idéias.
Entendemos que é na confluência desse tipo de pensamento de misturas de corpos potencialmente produtivos, que a noção do comum retorna com vigor nas discussões sobre as redes sociais nos dias de hoje, como, por exemplo, na recente obra Multidões, de Hardt e Negri:
Duas características de multidão tornam particularmente clara a contribuição da rede à possibilidade de democracia hoje. A primeira poderia ser apresentada como seu aspecto ‘econômico’, a não ser pelo fato de que a separação entre as realidades econômicas e os outros terrenos sociais rapidamente se esfacela aqui. Na medida em que a multidão não é uma identidade (como o povo) nem é uniforme (como as massas), suas diferenças internas devem descobrir o comum [the common] que lhe permite comunicar-se e agir em conjunto (HARDT & NEGRI, 2005, p. 14).
O comum, assim definido, seria o espaço comum, constituindo condições de reconhecimento coletivo de questões que afetam a vida das pessoas envolvidas. Costa, a esse respeito, comenta:
[...] o indivíduo, ao reconhecer suas próprias questões, suas preocupações e seus conflitos numa esfera pública determinada, consegue se perceber como pertencendo a um coletivo, a uma comunidade que compartilha de seus interesses [...] Na medida em que não vejo minhas próprias questões e preocupações sendo colocadas em comum por uma coletividade, não posso me sentir como pertencendo plenamente a essa mesma comunidade. Posso vir a participar, mas a dimensão de ‘pertencimento’ é mais complexa que a simples participação. Do mesmo modo, para que uma coletividade consiga o engajamento de alguém em seus problemas, é preciso que ela o inclua em seu fórum de discussões, que ela desenvolva, portanto, não exatamente estratégias de ‘mensagens’, mas estratégias de ‘escuta’. (COSTA, 2005, p. 9).
Nesse mesmo sentido, como afirmam Hardt e Negri, o comum que compartilhamos não é algo que descobrimos, mas algo que é produzido, como podemos observar na seguinte citação:
[...] Nossa comunicação, colaboração e cooperação não se baseiam apenas no comum, elas também produzem o comum, numa espiral expansiva de relações. Esta produção do comum tende atualmente a ser central a todas as formas de produção social, por mais acentuado que seja seu caráter local, constituindo na realidade a característica básica das novas formas dominantes do trabalho hoje. (HARDT & NEGRI, 2005, p. 14).
Indo além, esses autores dizem que a humanidade transforma a si mesma, sua história e sua natureza nessa nova forma de produção. Para eles, então, o problema não consiste mais em decidir se essas técnicas humanas de transformação devem ser aceitas, mas aprender o que fazer com elas e saber se funcionarão em nosso benefício ou em nosso detrimento.
É necessário, neste momento lembrar que nossa dissertação teve como motivação também uma base empírica, que será mais bem desenvolvida a partir do Capítulo 2, quando apresentaremos as possibilidades que as novas tecnologias de comunicação e informação têm em trabalhar ou não em nosso benefício, quando poderemos argumentar conjuntamente com os mecanismos de participação em políticas públicas.
Por ora, introduzimos a noção de esfera pública enquanto palco de nossa presença em conversações políticas. Nesse contexto, podemos dizer com Costa que
"O que nos importa é o fato de que indivíduos reais se reconhecem muito pouco no modo como as questões políticas e sociais são defendidas como relevantes pela mídia e pela classe política atualmente. Essa questão provoca, muito naturalmente, uma espécie de (des)investimento de atuação da parte de cada um na esfera pública, no espaço comum onde nos reconheceríamos como pertencendo a um determinado grupo social". (COSTA, 2005).