Nova forma de poder na América Latina.

Escrito em parceria com Giuseppe Mario Cocco, cientista político e professor da UFRJ, o mais recente livro do filósofo italiano Antonio Negri discute as novas formas de poder e as possibilidades de resistência à globalização no contexto político e econômico de países como Brasil, México e Argentina.

O livro é Glob(AL) - Biopoder e Luta em uma América Latina Globalizada - Antonio Negri, Record, 272 págs.

Os autores procuram perceber como os três maiores países da América Latina, que experimentaram um processo de desenvolvimento bastante conturbado, enfrentam a globalização, que determina uma transformação geral de parâmetros da vida econômica e democrática. A reflexão parte de uma hipótese: "a soberania, em nível global, foi definitivamente reduzida a uma relação de forças antagônicas". A relação entre domínio e dominados não pode ser fechada, a soberania contemporânea é um poder sujeito a estímulos diversos, contraditórios.

Para compreender a realidade latino-americana nesse novo contexto, Negri e Cocco analisam o modelo nacional-desenvolvimentista dos anos 1940 e 1950 e sua herança paradoxal de crescimento econômico, aumento da dívida externa e das desigualdades sociais, examinando as ilusões do projeto neoliberal, implantado na região. A realidade atual é um período de invenção e lutas e impõe a busca de novas sínteses e experimentações, livres das camisas-de-força dos dogmatismos - tanto de direita quanto de esquerda. O princípio que defendem é a primazia das lutas sociais e a idéia segundo a qual a inovação, antes de ser técnica, é sempre social.

"A derrota dos EE.UU. é uma derrota política", afirma Antonio Negri

O filósofo italiano Toni Negri analisa, como uma "derrota", a invasão dos Estados Unidos no Iraque. Dissertou no recuperado Hotel Bauen e diante da Página/12 augurou uma perspectiva auspiciosa para a América Latina, criticando a esquerda "tradicionalista" da Europa.

O filósofo e militante italiano Toni Negri está na Argentina pela segunda vez. Vem do Chile e vai também ao Brasil. Depois de ter lançado a polêmica em âmbito mundial, com seu livro Império sobre o fim do imperialismo clássico, está agora convencido de que o tempo é anômalo para a América Latina, porque deixou de ser o "pátio traseiro" dos Estados Unidos. Da crise Argentina de 2001 à atual crise brasileira, passando pelo falido golpe na Venezuela e as revoltas andinas, ele lê uma mudança profunda e continental, capaz de dar lugar a um multilateralismo que dispute a pretensão norte-americana de soberania imperial. Em seu diálogo com Página/12, insiste em que a América Latina está mais avançada do que a Europa para pensar a relação entre os movimentos sociais e os governos na experimentação de um radicalismo democrático.

Eis a íntegra da entrevista publicada pelo jornal Página/12, 1-11-05.

Que atualidade têm as teses do Império, após a intervenção militar dos EE.UU no Iraque?

"Logo após a saída do Império, a polêmica se centrou no papel dos EE.UU na guerra, a partir de quem sustinham que a política norte-americana se apresentava como política imperialista, o que tendia a apresentar a tese do Império sobre a redistribuição do poder em nível global como falsa. Vendo esta posição, a primeira coisa que é preciso dizer, é que a guerra no Iraque não mostrou o renascimento da função imperialista, senão, antes pelo contrário, a derrota definitiva do unilateralismo imperialista norte-americano. E isto não só pela dificuldade que os norte-americanos encontraram na própria guerra, senão porque se demonstrou que é absolutamente impossível conduzir o processo de ação de polícia internacional fora de um quadro mundial de acordos que abrange outros autores e países. A derrota norte-americana não é só uma derrota sobre o terreno, é, sobretudo uma derrota política, devido à sua incapacidade para instalar uma ordem na zona. A guerra do Iraque não implica uma derrota como foi a do Vietnã, devido à resistência dos Viet-Cong no contexto da guerra fria. A derrota atual é por falta de capacidade para construir uma unanimidade em torno de uma operação de guerra. Numa outra ordem de coisas, o velho direito internacional, que era um clássico direito do Estado-nação, ficou completamente deslocado e, ademais, é preciso considerar a absoluta incapacidade norte-americana de financiar esta guerra: a crise do orçamento norte-americano é algo verdadeiramente grave.

Em outras oportunidades falou de um "golpe de Estado" no Império. Poderia explicar esta imagem? Como explicaria atualmente a formação de uma estrutura de poder no Império?

"Na situação atual, o projeto norte-americano se revela numa crise profunda. Bush é um pequeno Luis Bonaparte, que tenta um golpe de Estado no Império, para impor um comando unilateral sobre a globalização. Isto, não só não é possível, senão que é extremamente perigoso sob todos os pontos de vista. Mas, além disso, entrou em crise, também, a capacidade norte-americana de gestão ideológica para desenvolver políticas econômicas: o neoliberalismo, que parecia totalmente vigente faz uns poucos anos, é agora rechaçado por um amplo ciclo de lutas, o que abre uma situação extremamente complicada e variável. A guerra confirmou que o problema maior é que o império não sabe ate onde se dirige. O que veremos, então, é uma nova batalha para ver quem comanda no império, qual é o regime soberano que vai se determinar. A hipótese que me parece mais plausível hoje é a emergência de um grande conglomerado aristocrático, formado pelas grandes potências continentais, tais como a China ou a Índia, e parte da Europa, que se apresentam na primeira linha da mundialização.

E como avalia a persistência de uma prédica antiimperialista, em boa parte da esquerda?

"Do que estou seguro, é de que as ideologias antiimperialistas das esquerdas tradicionais, que são profundamente conservadoras, estão equivocadas. Elas funcionam como uma espécie de espelho deformador das posições, no estilo Fukuyama e seu fim da história, que ele pensa em termos de grandes nações, mais do que nestas novas sínteses soberanas. Ou de Huntington, somente um sim é um verdadeiro inimigo, porque organiza um discurso para as elites norte-americanas. Penso, em troca, para voltar ao anterior, que é preciso prestar muita atenção ao modo pelo qual os movimentos sociais condicionam permanentemente as sínteses políticas, os novos modos soberanos. Trata-se sempre de variáveis complexas."

Como crê que a América Latina participa desta nova redefinição da soberania imperial?

"Parto de uma idéia básica e é que esta parece ser a primeira vez que a América Latina não atua como pátio traseiro dos Estados Unidos. É muito significativo, neste sentido, a derrubada da ALCA. Esta modificação é realmente importante, mesmo que tenhamos em conta a estabilização deste processo pela presença global do neoliberalismo. Esta novidade, ademais, se translada ao terreno político, precisamente no momento em que o grande vizinho do Norte está em dificuldades e não tem capacidade de intervir imediatamente. Deste modo, a situação do Brasil, marcada pela vitória de Lula, produziu uma consolidação de uma força de esquerda e um equilíbrio intercontinental positivo do ponto de vista dos movimentos. Do Uruguai à Venezuela, passando pelas intensas lutas da zona andina, o mínimo que se pode dizer é que estamos ante uma situação de profunda mobilidade. No plano internacional, estes processos se projetam apresentando a América Latina como um grande potencial continental, para participar, no terreno transnacional, da gestão do mercado mundial. Isto, evidentemente, implica uma verdadeira inovação. É neste sentido que podemos interpretar a importância do desenvolvimento das relações Sul-Sul. É a partir desta perspectiva, creio, que devemos valorizar o papel desta esquerda sul-americana no governo, por seu impacto sobre o terreno global. O que significa, então, que um governo da América Latina se proponha sair do FMI? O fim da dependência é uma possibilidade, uma potencialidade. E é nesta possibilidade que devemos pensar. E o problema maior que se nos apresenta, então, agora, é o das relações entre movimentos e governos, na medida em que estes últimos estão ante a possibilidade de aprofundar este potencial criativo de novas formas soberanas.".

Qual poderia ser a relação entre governos de esquerda e movimentos sociais?

"Antes dizíamos que os governos conviviam, a seu pesar, com um duplo poder. Hoje, em troca, se trata de um verdadeiro momento de transformação da própria soberania e da relação entre estes termos. E isto se projeta de modo direto a nível internacional, o que adquire grande importância, quando se recorda que, na base do império, está a guerra. E é na América Latina, onde se vê como estas coisas se passam, ou não. O que sucede hoje no Brasil? Seguramente, o movimento vai pagar um preço muito alto pela estabilização atual do governo de Lula, num momento em que os movimentos organizados sentem uma enorme desilusão. A situação da Argentina parece manter-se num certo equilíbrio, logo após a crise. E existe a situação venezuelana, que, provavelmente, apresenta o problema de modo caricaturesco, porque a proposta vem do alto e desencadeou uma enorme energia. O certo é que se trata da situação mais radical destes países, porque pode ser a porta de entrada da guerra como variável por parte dos EE.UU."

A que se refere, quando fala de um "novo pacto"?

"A questão de um novo pacto é a redefinição de uma aliança estratégica. Mas, o ponto-chave é o conteúdo multitudinário deste novo pacto. Por exemplo, a defesa da pequena propriedade no Brasil, de um modo que seja compatível com o desenvolvimento da agricultura, que é, de fato, um ponto programático do MST. Contextualizado para a América Latina, isto implica a discussão de como pensar um pacto que não insista na reprodução de uma perspectiva keynesiana, que já não é possível: hoje não se pode discutir um pacto, supondo uma dinâmica produtiva dada pela grande indústria, senão que o novo pacto deve referir-se à relação entre as organizações sociais e a organização produtiva, em termos de uma cooperação social. O grande erro da esquerda tradicional oportunista é que, se não se fala das formas institucionais e políticas, nas quais a grande reforma deverá acontecer, não se fala de nada. Somente a partir destas formas aparece a verdadeira dimensão de um radicalismo democrático de base. A questão é: o que significa hoje ter força e como esta se consolida. Evidentemente, não é através de um exército. Este problema está bem presente na Argentina, que é como um corpo aberto, ótimo para análise.".

Você apoiou o "sim" à Constituição européia no referendum francês. Como explica esta posição, que foi contrária à maioria da esquerda européia?

"Estamos presenciando, na Europa, a reconstrução da esquerda, como, por exemplo, a Linkspartei alemã. A esquerda corporativa européia teve sua primeira vitória no "não" ao referendum à Constituição na França. Para mim, tratava-se de impulsionar um debate político sobre a relação que existia entre três coisas: a apresentação da Europa como alternativa necessária aos Estados Unidos, a constituição de um espaço europeu aberto a novas dinâmicas e, por último, a consideração da Constituição, não como a que daria definições positivas, senão como uma negatividade aberta a contradições bem interessantes. Isto não foi possível, porque os movimentos sociais foram absorvidos por esta esquerda tradicionalista, salvo uma franja do movimento que trabalha a questão da migração. Quando apoiei o sim, muitos amigos se incomodaram (risos). Mas, a unidade em torno do não, sobretudo na França, é uma unidade de loucos: socialistas de direita, estalinistas, intelectuais trotskistas e outros que se juntaram com a direita e a ultradireita, em nome de um ressentimento pelo fim do Estado social e uma suposta defesa de direitos em detrimento dos migrantes."

Como vê o movimento de resistência global?

"Em profunda crise. O que começou em Seattle, seguiu em Gênova e continuou no movimento contra a guerra, decaiu brutalmente. Disto se nutriu a reconstrução da esquerda tradicional. Porém, o interessante é que, no interior desta curva descendente, iniciou outra que começa a ser ascendente, protagonizada por lutas sociais de novo tipo, que se dão fundamentalmente em torno do trabalho precário e da migração."