Por uma ética hacker

Este é o nosso mundo agora... O mundo do elétron e da mudança, a beleza do modem. Nós fazemos uso de um serviço já existente sem pagar por aquilo que seria bem caro se não fosse usado por gulosos atrás de lucros, e vocês nos chamam de criminosos. Nós exploramos... e vocês nos chamam de criminosos. Nós procuramos por conhecimento... e vocês nos chamam de criminosos. Nós existimos sem cor de pele, sem nacionalidade, sem religião... e vocês nos chamam de criminosos. Vocês constróem bombas atômicas, vocês começam guerras, assassinam, trapaceiam, e mentem para nós e tentam fazer que acreditamos que e para nosso próprio bem, sim, nós somos os criminosos. - Manifesto Hacker - The Mentor

Por trás deste manifesto hacker existe uma ideologia. Uma sociedade da informação, baseada em relacionamentos de rede e catalisada por computadores abre espaços para uma nova forma de trabalho imaterial. Surge, assim, uma comunidade de programadores que comunga de uma ética e de uma cultura própria baseada na colaboração, no compartilhamento do conhecimento e na ausência de hierarquias. Essa comunidade clama por liberdade e através de suas iniciativas foi concebido o movimento do software livre.

Eric Raymond apresenta os hackers como 'uma comunidade, uma cultura compartilhada, de programadores experts e gurus de rede cuja história remonta a décadas atrás, desde os primeiros minicomputadores de tempo compartilhado e os primeiros experimentos na ARPAnet. Os membros dessa cultura deram origem ao termo "hacker". Hackers construíram a Internet. Hackers fizeram do sistema operacional Unix o que ele é hoje. Hackers mantém a Usenet. Hackers fazem a World Wide Web funcionar. Se você é parte desta cultura, se você contribuiu a ela e outras pessoas o chamam de hacker, você é um hacker'. Raymond sugere que o termo hacker não deve fazer referência apenas aos programadores de computadores. Ele diz que 'A mentalidade hacker não é confinada a esta cultura do hacker-de-software. Há pessoas que aplicam a atitude hacker em outras coisas, como eletrônica ou música -- na verdade, você pode encontrá-la nos níveis mais altos de qualquer ciência ou arte.' [Raymond, 20]

Hackers, crackers, lamers, piratas cibernéticos soam como se fossem a mesma coisa. A história não é bem assim. A cultura Hacker tem origens no MIT – Massachutts Institute of Technology e em outros laboratórios americanos, como o PARC da Xerox.. O movimento Hacker coloca o ser humano no centro do universo e passa a desenvolver toda uma nova relação para satisfazer esta nova variável. Estes são os caras dos softwares de códigos livres, estes são os homens do GNU-Linux.

Hélio Gurovitz, jornalista de tecnologia, apresenta os hackers como: Hacker existem desde o final da década de 50. A palavra começou a ser usada na época pelos membros mais entusiastas do Tech Model Rail Club, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Seu significado: gente que era capaz de proezas técnicas, de ligar fios e plugar circuitos como ninguém. A cultura subterrânea do computador se apropriou do termo e consagrou-o como sinônimo de programador prodígio. Se você perguntar a gente como Steve Wozniak, criador do Apple, ou Linus Torvalds, pai do Linux, se eles se consideram hackers, é provável que fique surpreso ao ouvir um sim como resposta. No entanto, a cultura hacker carrega uma conotação negativa. Gurovitz acrescenta que 'A primeira vez que a palavra foi usada como conotação negativa foi em uma reportagem da rede de TV CBS, em 1988, sobre a conferência Hacker . O âncora Dan Rather alertava a audiência para a ameaça dos hackers, como se eles fossem um bando de terroristas prestes a dominar o mundo em uma conspiração para invadir todos os computadores da Terra. Tal fantasia ganhou eco nos romances de ficção cientifica cyberpunk de escritores como William Gibson (autor de Neuromancer, que por sinal, foi o primeiro a cunhar a expressão ciberespaço) ou Bruce Sterling. De uma hora para outra, os hackers se transformaram em bode expiatório de tudo o que a tecnologia pode causar de mau - e que não é pouco [Gurovitz, 32].'

Pekka Himanen em entrevista para Sheila Grecco, do Valor Econômico diz: Eu me atrevo a dizer que em 2020 a internet já será uma mídia universal, entretanto, isso requer trabalho consciente e a formação de novos heróis. Via de regra, tendemos a celebrar os feitos de CEOs e outros que basicamente só se movem pautados pelos interesses de suas companhias. Mas a rede não pode existir sem a ação individual e, por vezes, anônima, dos bons hackers, nomes como os de programadores, verdadeiros "heróis da generosidade", porque dividiram seus conhecimentos com os colegas - como fizeram Vinton Cerf e Tim Berners-Lee, os pais da internet na rede, entre outros. Os nomes de criminosos e dos piratas virtuais vão simplesmente se perder na poeira da história [Grecco, 31].

Fundamentado na utilização da tecnologia os hackers estão moldando um novo contrato com a sociedade. Hackers crêem que a revolução digital deve ser traduzida em um tempo lúdico para a humanidade - a sexta-feira deve virar um domingo. Acreditam no conhecimento livre. No jargão hacker, a sua ética significa a crença em que o compartilhamento da informação é um poderoso e positivo bem. Na prática, isto significa um dever ético de trabalhar sob um sistema aberto de desenvolvimento, no qual cada um disponibiliza a sua criação para outros usarem, testarem e continuarem o desenvolvimento. Para Himanen , 'os argumentos éticos do modelo hacker são os mais importantes. O aspecto mais interessante da ética dos hackers é se opor à velha ética protestante. Uma relação mais livre é também necessária na economia informal cuja base principal é a criatividade [Himanen, 33]'

Em Protocol – how control exists after descentralization - Galloway comete alguns equívocos ao apresentar hackers e crackers como um mesmo grupo. No entanto, ele aponta para o fato dos hackers buscarem o limite do protocolo. Ele diz que ‘O protocolo é sinônimo de possibilidades (...) se alguém preferir ignorar um certo protocolo fica impossível, então, comunicar-se com um canal em particular. Sem protocolo, sem conexão (...) Hackers não se importam com as regras, com sentimentos ou opiniões. Eles se preocupam com aquilo que é verdadeiro e possível [Galloway, 29]. Nesse sentido, os hackers estabelecem uma cultura própria. Eu traduzo a palavra hacker como um artesão da tecnologia. Uma retomada da paixão, do amadorismo e do colaborativismo que foram perdidos com a ascensão do império industrial. Sob um contexto mais filosófico, a cultura hacker traz grandes novidades ao pensamento humano. Uma nova ética vem desfilando pela passarela dos mercados e transmitida na selva online. O conhecimento livre rola solto na rede. E a partir dessa idéia esses artesãos reconstroem a vida.

Esses valores estão sendo trocados. A exemplo das músicas que trocamos, estamos vendo uma enxurrada de informação disponibilizada. E as pessoas estão acessando os sites, e repassando o conhecimento para as listas de debates, publicando nos blogs e chamando a atenção dos incautos.

Não tem nada a ver com adolescentes encapuzados. Escondidos na máscara de uma pseudo marginalidade juvenil. Medo da policia, do papai e da mamãe. Hacker não invade sistemas para sacanear. Se invadem, tem como objetivo o estudo. Uma necessidade de exploração das pradarias digitais. Hackers estão construindo um novo mundo.

Josephine Berry, ao afirmar que o movimento de programadores deve ser analisado no âmbito da mídia tática, ou mais especificamente dos movimentos de contra cultura, assim como os trabalhos dos net-artistas – Ele diz: 'a lógica do capital (...) deve sempre procurar obter lucro dos seus investimentos mediante a extração de um produto, o (mídia) tático rejeita o próprio (nomes próprios, identidades fixas, territórios definidos) em nome do temporário, do precário, do efêmero e do improvisado [Berry, 07]. '

Logo, o que significa ser hacker? Himanen afirma: 'O que aconteceria se olhássemos para os hackers por uma perspectiva mais abrangente? O que significa o desafio deles? Vendo a ética hacker dessa forma, ela se torna, em geral, um nome para uma relação apaixonada com o trabalho que está se desenvolvendo na era da informação. Por essa perspectiva, a ética hacker é uma nova ética que confronta a atitude para o trabalho que nos aprisionou tanto tempo, a ética protestante, como explicada por Max Weber, no clássico – The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism (...) Mas, a ética hacker é um desafio para a nossa sociedade e para cada uma das nossas vidas. Além de uma ética do trabalho, o segundo nível de importância desse desafio é a ética hacker do dinheiro – um nível que Weber define como outro componente principal da ética Protestante. Certamente, a ‘partilha da informação’ mencionada na definição da ética hacker não é a maneira dominante de se fazer ‘dinheiro’ nos nossos tempos; Pelo contrário, dinheiro se faz na maioria dos casos pela propriedade da informação’ .[Himanen, 33]