Mais heróis a cada dia

É fácil e cômodo manter um rebanho de carneirinhos. Dóceis, todos se mantêm na mais absoluta ordem em troca de um mínimo de segurança oferecida pelo pastor e pelos cães de guarda, que afastam os riscos de um ataque dos lobos.

Mas os cães e os lobos são irmãos: a segurança vendida é conseqüência direta do medo gerado (em outras palavras: cria-se uma demanda, e a seguir oferece-se um produto/serviço para supri-la). Essa pseudo-segurança, no entanto, tem um alto preço: a liberdade passa a ser apenas um conceito inefável, limitado às regras impostas pelo pastor e pelos cães.

O individual, da mesma maneira, inexiste completamente. Ao invés da pluralidade de diferenças, cores, matizes que enriquecem (ou deveriam enriquecer) a espécie humana, e a sociedade que ela compõe, um manto massificador cobre tudo e todos. O brilho diverso e a surpresa da descoberta de um novo ponto de vista no meio do caleidoscópio são mascarados pela unanimidade cinzenta, consumista e autofágica. Ou, ainda, pela imposição sistemática de pretensos dogmas ideológicos e/ou religiosos.

Contraditoriamente, atacar estes dogmas ficou mais fácil do que tentar fugir daquela unanimidade: a queda de ex-União Soviética é fato, e a censura imposta em Cuba comprovaria a falência de um modelo meramente utópico; mas negar-se a entrar numa fila e comer o mesmo McDonald´s, aqui ou do outro lado do mundo, é quase uma heresia. Mais difícil, porém, é aceitar que num ou noutro caso o objetivo é o mesmo: manter o rebanho sob um mínimo de "segurança", representada pelo poder absolutista representado ora pelo Estado, ora pelo Capital - o pior é que, atualmente, até mesmo esta dualidade só persiste em alguns pontos do planeta; o "monoteísmo capitalista" impera como pensamento único, dominante.

O quadro parece negro demais. Mas, ironicamente, são exatamente as ovelhas negras que vêm quebrar a monotonia, expurgar a massificação, reacender o brilho da diversidade. Sem se render a nenhum absolutismo, abertas ao conhecimento e sedentas por novos horizontes, são essas ovelhas que se negam a contribuir com e alimentar o monopólio massificante. Contra as regras sujas que vêm de cima para impor uma realidade injusta e baseada unicamente na competição, resgatam-se os princípios do consenso (não raro gerados pelo próprio dissensso), fala-se e discute-se mais, abrem-se as portas do colaborativismo, re-humanizam-se as relações. Abominam-se falsas hierarquias centralizadoras e pulveriza-se o verdadeiro poder entre nós, pelos nós que mantêm a teia unida e cada vez mais forte. E vive-se mais, abraça-se mais, beija-se mais.

Para alguns, esse romantismo quixotesco vai dar em nada. Tudo bem, trata-se de uma opção, e respeita-se a liberdade de opção de cada um. Pode-se optar por uma pílula azul ou por uma pílula vermelha, por exemplo - feita a opção, responsabilize-se pelos efeitos da sua pílula, ou recolha-se à segurança do rebanho.

Revolução

Nietzsche dizia que é nos tempos de crise em que surgem os heróis. Nesse sentido, pode-se afirmar que a própria hegemonia do capital sobre o humano gera, naturalmente, o que se poderia chamar de efeitos colaterais. Mas os heróis desta época são quase sempre anônimos, e multiplicam-se como esporos, viralmente, impedindo até mesmo o contra-ataque organizado do monopólio.

Isso porque a revolução desses heróis vem de baixo. Subverte a própria lógica dos "detentores do poder" - os heróis (des)organizam-se descentralizadamente, a periferia torna-se o centro. Antes de armar (no sentido de dar armas) uma guerrilha de resistência, mostra-se a consciência da resistência. As tecnologias disponíveis são, fundamentalmente, as mesmas, para ambos os lados. Como utilizá-las, porém, faz toda a diferença.

A mesma tecnologia que divide, cerceia a liberdade, impede o desenvolvimento - e mata - passa a multiplicar conhecimento, ampliar os horizontes, impulsionar o crescimento humano e social. Solidariamente, a ampliação da consciência da unidade na diversidade resgata e revaloriza o individual (o indivisível) como imprescindível e insubstituível. Indiferente à massificação alienante, o conhecimento circula livremente e as inteligências se coadunam. O egoísmo fica cada vez mais isolado (permito-me a redundância) e impotente; sente-se ameaçado pelas vozes que ganham força e reverberam em ações tão simples quanto eficazes.

É essa revolução que está sendo vivida a cada dia, a cada momento. Os protagonistas somos todos responsáveis - ou melhor, todos temos méritos.

[Originalmente publicado na Novae]