Uma escolha séria

Enfim uma matéria sobre a adoção do software livre pelo governo brasileiro. Não está no caderno de economia. Está na capa do caderno de informática do Estado de São Paulo. Vejo uma certa desconsideração nessa alocação. O argumento mais importante não é o técnico. É econômico - social. Assim, vou tentar fazer uma análise pontual sobre essa escolha política.

Não concordo com o Prof. Alberto Luiz Albertin. A escolha do software livre não é emocional. A colocação de que não existem estudos sérios sobre o impacto do software livre no setor de informática me remete a discussão sobre reputação. O que são estudos sérios? A universidade está desatualizada em relação ao que acontece na internet, nos trabalhos colaborativos e na catalisação das inteligências coletivas. A academia fica na retórica, enquanto a sociedade da informação dá passos maiores. Temos que nos atentar que o Linux está muito bem estabelecido nos mercados de servidores de web. E tecnicamente tem sido uma solução mais segura do que as soluções proprietárias.

Software livre não é grátis. E nem deve ser. Aliás, numa concepção mais vanguardista, o software livre deixa de ser um produto de alguma empresa, e passa a ser um serviço das comunidades. E quando falamos em projetos brasileiros estamos pressupondo comunidades brasileiras. Assim, a compra de serviços de software não é mais um bem importado através de royalties e patentes. O dinheiro fica no Brasil. A argumentação da M$ de que o software livre e proprietário acarretam em despesas parecidas não pode ser considerado verdadeira. A diferença está no destino final do dinheiro. E no caso do software livre está realimentando a cadeia produtiva no país.

Política Pública

Outra colocação infeliz do Prof Albertin é que "Não se discute que política de tecnologia se deseja para o País e, sem isso, não se vê o governo usar de forma organizada o poder de compra que tem." Creio que a Fundação Getúlio Vargas não vem acompanhando a política apresentada pelo Planalto. A opção pelo software livre vem atender exatamente o desejo desenvolvimentista do Governo Federal em relação à tecnologia.

O Brasil tem se mostrado um mercado muito importante para a implementação da filosofia do software livre. Esta tecnologia pertence a humanidade. Não a uma empresa ou a um país. É a ruptura de um velho paradigma. A sociedade da informação não segue preceitos da era industrial. E pensar no software como uma ferramenta de alavancagem do conhecimento do país é um projeto futuro muito mais contundente do que a suposição de uma possível economia pela utilização de softwares proprietários. O Brasil tem que optar pelo desenvolvimento de suas capacidades.

O Governo está, então, utilizando seu poder de compra como opção progressista. Software livre tem tudo a ver com essa posição.

Uma opção filosófica

Nas entrelinhas desse debate estamos presenciando uma nova forma de se fazer contra política. Cid Torquato da Camâra e-net diz no artigo publicado na B2B magazine, “Nesse contexto é que surge o conceito de diplomacia corporativa, que se define como a evolução do lobby e de advocacy, para melhor se adequar às demandas e dinâmicas do jogo político”. Nossa! Parece papo de perdedor. Ou a constatação de que o jogo político mudou. E mais, que a atitude do Governo está focada na direção do todos ganham, e não mais privilegiando um segmento em detrimento a outro. Lobby significa a união de interesses e dinheiro para alcançar o poder.

Não é essa idéia. Sérgio Amadeu diz "Estudando o fenômeno da exclusão digital, descobri que seu combate deveria se tornar política pública", justifica. Nesse contexto, a importância do software livre ficou clara. "Ele desperta a idéia de compartilhamento. É desenvolvida internacionalmente, mas apropriada localmente. E não se apóia na remessa de royalties para os países centrais". Essa é uma opção filosófica.

A sociedade da colaboração

Amadeu está certo. O Brasil está pegando um atalho para o futuro. Mas uma crítica ronda o discurso do Amadeu. Está critica está fundamentada na importância que ele dá para o software livre na inclusão digital. Dizem que para o usuário final nos projetos de inclusão não existe diferença entre a utilização do linux ou do windows ®. ©

Uma verdade para os leigos. Afinal internet não tem a ver exclusivamente com computadores. Estamos falando de pessoas, do inter-relacionamento entre pessoas, formação de comunidades e exercício da cidadania.

No entanto, uma análise profunda desta nova sociedade fica evidente a necessidade de fomentar políticas de compartilhamento e colaboração. O software livre é a experiência mais tangível da catalisação das inteligências nas comunidades. Utilizar essa experiência e incentivar financeiramente esses grupos de trabalhadores digitais, via de regra, acarretará no crescimento das comunidades online como um todo. E assim, os projetos de inclusão serão beneficiados pela militância colaborativa.

Necessidade de organização

Mas isso não é uma tarefa simples. Pois essas comunidades estão caoticamente espalhadas pela rede. Encontrar os grupos, entender a relevância dos projetos e cooptar essas pessoas é o ponto fundamental desta inclusão colaborativa.

O governo Federal deve encontrar formas de estabelecer linhas de micro crédito para esses grupos independentes. E promover e incentivar os projetos já existentes, tanto no desenvolvimento de softwares como para as comunidades de interesse. Colaboração é função da compreensão da rede como forma de reconquistar a cidadania. Entendemos que essa colaboração não é exclusividade da virtualidade. A periferia sempre soube exercer esse compartilhamento de esforços para o bem comum. As ferramentas de software apenas incentivam e incrementam esse multirão. O país tem muito aprender com suas origens. A sociedade da colaboração nos move de dentro para fora e norteia o nosso futuro. O Brasil está no lugar certo.