Doc Searls: Ruim para eles!

Doc Searls é um dos 4 autores do Manifesto Cluetrain (Manifesto da Economia Digital, Campus, 2001). Editor do Linux Journal e manda bem no seu weblog http://doc.weblogs.com. Doc tem uma audiência fantástica, e atualmente é uma das pessoas mais influentes da Internet dos Estados Unidos.

Doc representa a força da nova mídia que está se formando, num movimento de baixo pra cima. Onde a reverberação das vozes tem um sentido muito diferente do que as mídias tradicionais. Pessoas comuns estão conversando na rede e criando um diferencial.

Os mercados sempre foram um fenômeno natural. Muito tempo antes do que o mundo dos negócios utilizaram o termo "market"

Perguntei ao Doc: Você é o criador da metáfora "os mercados são conversações" - No Manifesto Cluetrain, tanto você como os outros autores apontam para a revolução da voz. Você acredita que as pessoas comuns podem promover a revolução através da voz?

Doc: Os outros autores trabalharam a "voz" mais do que eu fiz. Mas eu acredito bastante nas mesmas coisas; que os mercados sempre foram um fenômeno natural. Muito tempo antes do que o mundo dos negócios utilizaram o termo "market" para rotular categorias, as demografias, as regiões geográficas e outras abstrações. E que os mercados naturais estão ocupados com vozes humanas (pessoas comuns e pessoas menos comuns também). Pessoas falando com pessoas sobre coisas que interessam a elas. Estas conversações acontecem também dentro das empresas. Entre empresas e clientes, mas sempre entre seres humanos que dividem interesses e paixões. A revolução, como eu vejo, é a restauração de um balanço natural do poder, um relacionamento natural entre oferta e demanda, entre vendedores e clientes. Assim que isso acontece. A voz falsa da propaganda das empresas, press releases e declarações de missão empresarial parecerão cada vez mais antigas e estranhas.

Parangolé: Você pode me dizer qual o significado (sob a ótica de mídia) do teu weblog http://doc.weblogs.com

Doc:Nunca gostei da palavra mídia. O doc.weblogs.com é um jornal pessoal. Esta hospedado por um amigo, Dave Winer e sua empresa Userland, num dos seus domínios: weblogs.com. Eu teria preferido que o blog estivesse configurado no www.searls.com, ou www.linuxjournal.com, mas aconteceu de ficar no weblogs.com.

O blog é um projeto paralelo para mim. Meu principal trabalho é com o Linux Journal. Mas também é um jornal na Web muito popular, com alguns milhares de leitores por dia.

Uma das coisas que gosto sobre os blogs é que eles são extremamente pessoais e expressam a voz do autor, ao invés da voz do patrão do autor. E neste aspecto, blogs são muito consistentes com o que está escrito no Manifesto Cluetrain.

Life is a market

Parangolé: E outros weblogs? Você acredita que existe um objetivo de se fazer um jornalismo independente de baixo para cima?

Doc: Sim para as duas perguntas.

Parangolé: Uma vez você disse que as vidas são mercados. Viver e conversar parece que tem tudo a ver. Você acredita que a conversação é um ato revolucionário para uma melhor qualidade de vida?

Doc: Acredito que foi uma citação do meu amigo nigeriano Sayo Ajiboye, que contou um dito Yoruba: "Life is a market." (Vida é o mercado).

Gostaria de fazer menção ao trabalho do poeta David Whyte http://www.davidwhyte.com/, que serviu de inspiração para o Rick Levine e para mim. (e talvez para os outros dois autores do Manifesto Cluetrain, mas não tenho certeza.) Rick mencionou o livro "The Heart Aroused", de Whyte. Um trabalho maravilhoso que recomendo. Ninguém trouxe mais bom senso sobre voz, na poesia ou na literatura, do que Whyte.

Eu também me inspirei no que Walt Whitman escreveu sobre voz no "Song of Myself". Eu disponibilizei algumas partes no http://www.searls.com/whitman.html. Procure pela palavra voz (voice) e você verá o que quero dizer.

O maior apelo do Cluetrain estava na sua voz, principalmente na de Chris Locke. Não era menos arrogante do que Whitman, mas eu acho que falava com as pessoas sobre sua honestidade emocional. Nós estávamos de saco cheio - e as pessoas que povoavam os mercados também estavam de saco cheio - de ter sido comandados pelas enormes e estúpidas corporações por muito tempo. E agora é hora de mudar.

Parangolé: O Cluetrain tem uma inspiração open source. Você acredita que o movimento open source tem proporcionado mudanças?. O que você enxerga de complementar entre o Manifesto e o open source? Você acredita que é o mesmo caminho?

Doc: Eu estive envolvido no movimento open source por causa do meu trabalho no Linux Journal, da minha amizade com Eric Raymond e de outras coisas mais. A filosofia open source tem certamente consistência com o Cluetrain. E com o que o Eric fala sobre o desenvolvimento de software open source no modelo de bazar. Nós chamamos o bazar de marketplace. Sim existe muita sinergia aqui.

não gosto da palavra mídia, em parte porque eu acredito que a Web é um lugar ao invés de um sistema de tubos para bombear conteúdo.

Parangolé: A difusão da internet tem promovido uma aproximação entre pessoas. As distâncias ficaram menores. No Brasil, por exemplo, os debates sobre os rumos da comunicação são muito parecidos do que nos EUA. Você acha que esse debate catalisa o desenvolvimento evolucionário da humanidade.

Doc: Eu acredito que a rede é uma criação humana. Um mundo novo construído por pessoas e para pessoas. Há três valores que tem muito a ver com open source (o que agora penso sobre isso). 1) Ninguém é dono dela. 2) Qualquer um pode usar; e 3) Qualquer um pode melhorá- la. Eu não sei se isso vai ajudar a humanidade evoluir, mas vai ajudar o ser humano a ver e participar de um mundo muito maior e menos paroquial do que aquele que vivíamos antes da Internet.

Parangolé: O que você acha da expressão "todo homem se torna mídia dele mesmo"?

Doc: Não sei muito bem. De novo, não gosto da palavra mídia, em parte porque eu acredito que a Web é um lugar ao invés de um sistema de tubos para bombear conteúdo. Nos EUA as grandes empresas de entretenimento estão fazendo o máximo para regulamentar a Internet como um meio, ao invés de ser reconhecida como um lugar que transcende as fronteiras nacionais. E eu não quero dar a esses caras nenhum tipo de encorajamento.

Dito isto, eu concordo com a crença de que agora cada pessoa tem o poder de se expressar e protestar sem nenhuma ajuda da grande mídia. E isso apavora as pessoas que tocam essas companhias.

Ruim para eles, não?